VERSOS INSANOS

 

Nuvens compactas, cinzentas, sombrias,

Se apossam dos dias.

Tardes nubladas, chuvosas, tão frias,

Se mostram vazias.

Ruas, calçadas e praças molhadas,

Aprisionam a criança, atiçam lembranças.

Folhas caídas, outono, abandono,

Se mostram nostálgicas, revelam enganos.

Notícias dão conta que a dor que se planta,

Dá frutos ardidos, azedos, espantos.

O beijo negado, secura nos lábios,

O carinho abortado, padece a poesia.

São teias, são dramas, são tramas, vazias.

A cheiro da terra molhada me chama

Pra cama, pra lama, pro colo da dama.

Me chama, me clama, quer mais poesia,

Que drama, não chora, me engana, que drama!

O som do piano, solitário e profano,

A orquestra parada assiste ao seu solo,

O violino abusado, desfaz os meus planos,

O rufar dos tambores me tira do sono.

Versos sem nexo, confusos, insanos.

Quem sabe um navio me leve pra longe ?

Quem sabe um desvio me trague de volta ?

Quem sabe a poesia revele os meus sonhos ?

Quem sabe os meus sonhos tragam o alvorecer ?

 

Naldo Velho