AINDA QUE EM SONHOS

Quinas, esquinas, ruas transversas, vias expressas, paralelas, complexas, os carros se apressam, correria tamanha, cidade truncada, sitiada e insana. A sirene, o sinal, o aviso é vermelho. Navegar eu preciso, descobrir o segredo, decifrar o enigma que eu vi em seus olhos, renovar o meu pacto, exorcizar meus demônios.

Se eu seguir por esta rua vou morrer numa praça, se eu dobrar a esquina vou cair em desgraça, se eu romper a fronteira vou virar um estranho, se eu ficar onde estou: naufragar em enganos.

E o relógio avisa, já não há muito tempo, e o amor que eu tinha viajou pra bem longe, só deixou de presente um retrato e uns discos, e eu nem tenho vitrola, ainda assim eu os guardo. Ainda tenho os poemas que eu teimo e que choro, ainda tenho alguns quadros, luminosos matizes e uma sede danada, quem sabe um conhaque? E a inquietude ainda mora lá dentro de mim.

Quinas, esquinas, o bairro onde eu moro tem uma via expressa, complexa, estranha. Se eu romper a fronteira vou virar um estranho, navegar eu preciso, ainda quê, em sonhos.

naldo velho