É o curso de um rio em direção ao mar, é um cardume de peixes vagando pelo oceano, é uma gota d’água se evaporando ao sol e as ondas do mar a lapidar o rochedo.
É uma lágrima derramada por um amor perdido, é um grito de socorro no meio da vida, é uma estrela cadente em direção ao nada, é uma chegada a lugar algum, é uma partida pra lugar nenhum, é um barco sem porto, sem rumo, é um cais sem amarras, é uma nuvem cigana, é um coração calado, é um trem fora dos trilhos.
É a minha voz sufocada, é a estrada e o corte, e os cacos de vidro espetados no corpo, e a chuva caindo... É o café quentinho, depois o cigarro, é madrugada ainda, é noite de insônia, é o bar da esquina da rua lá de casa, é o jornal matutino e as notícias gritando: é o sangue na rua, é o menor abandonado, é o pivete armado e o espinho espetado na palma da mão.
É um homem chorando e as folhas caindo pelas ruas da cidade, é outono... E os meus olhos parados e a garganta engasgada, é o medo da vida, é a vida que segue, é a solidão do meu quarto, é a poeira na estante e os livros guardados e a mesma música estridente a violentar meus ouvidos, e o violão calado.
É o mesmo perfume de sempre trazendo saudades, é o sol que nasce todos os dias, é a lua amiga, companheira constante, é a sede, a fome e o sono. é a poeira e os cacos espalhados pela casa, é um homem cansado que insiste em sorrir, é a crença em Deus sempre presente, é a poesia e o sonho, defeitos de um tolo, é a nostalgia presente em cada detalhe, é a semente plantada, esperança de vida, é a vida de um homem que acredita em seus sonhos.